As chamadas grandes reportagens mesclam características da
narrativa literária, da história e do texto jornalístico. Elas fazem parte do
jornalismo literário. Livros como Rota 66, de Caco Barcellos, filmes
como Todos os homens do presidente e especiais televisivos como Globo
Repórter inserem o público em um mundo muitas vezes desconhecido, temido
ou distante; contam a história de maneira romanceada, quase lúdica em alguns
casos, prendendo a atenção e distanciando-se dos padrões de jornalismo aos quais
estamos acostumados. o jornalismo literário.
Jornalismo literário: aproximação ao cotidiano
Em março deste ano o mundo
ficou em polvorosa após a exibição da entrevista que o jornalista Martin Bashir
realizou com o polêmico astro da música pop, Michael Jackson. Mas o que fascinava
tanto o telespectador nesse especial televisivo, além das excentricidades do
entrevistado?
Bashir foi convidado por Jackson a acompanhar seu cotidiano durante oito meses,
seguindo-o em suas viagens, aparições públicas, em compras e momentos de lazer.
Conversou com amigos próximos, conheceu seus filhos, o que gosta e faz o cantor
em seu dia-a-dia. Com os dados coletados, o jornalista apropriou-se de características
da literatura para conduzir a sua reportagem, usando diversas vezes a primeira
pessoa em uma narrativa não linear, permeada por flashbacks, com descrições
minuciosas dos lugares visitados, das expressões e do comportamento de Jackson,
aproximando a abstração de sua vida milionária e incomum ao cotidiano de quem
assiste ao especial televisivo.
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Bashir e Jackson em uma das entrevistas que compuseram o documentário
"Vivendo com Michael Jackson" |
É nesse ponto, nas chamadas grandes reportagens,
onde se mesclam características da narrativa literária, da história e do texto
jornalístico que encontramos a resposta para a pergunta do primeiro parágrafo.
Livros como Rota 66, de Caco Barcellos, filmes como Todos os homens
do presidente e especiais televisivos como Globo Repórter inserem
o público em um mundo muitas vezes desconhecido, temido ou distante; contam
a história de maneira romanceada, quase lúdica em alguns casos, prendendo a
atenção e distanciando-se dos padrões de jornalismo aos quais estamos acostumados.
Os exemplos são muitos, e nem todos tão recentes
como imaginamos. O escritor e jornalista Euclides da Cunha escreveu um dos maiores
clássicos da literatura, do jornalismo literário e um dos melhores relatos que
falam do arraial de Belo Monte, seus habitantes e sobre as batalhas que o extinguiram.
Suas reportagens sobre Canudos, originalmente publicadas no Estado de S.
Paulo, deram origem ao livro Os sertões.
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Logotipo original do jornal O Estado de S. Paulo e Euclides
da Cunha |
Espero mostrar neste artigo um pouco mais desse gênero ainda pouco conhecido
pelas pessoas, que pode se tornar um registro histórico de um fato ou de uma
época. Além disso, veremos como esse gênero é produzido, em que difere do jornalismo
trivial, como nos entretém e fascina com relatos de fatos e acontecimentos verídicos
sem que percebamos exatamente por quê. Boa leitura!