Outro dia, alguém muito preocupado em querer “facilitar” a
vida, disse: “Ah, bem que a comida deveria se restringir a pílulas. A gente
tomava e pronto, estava alimentada, não precisaria se preocupar com cozinha,
comida...”. Como se comida fosse única e exclusivamente algo pertencente ao
território do biológico, da sobrevivência física...
A notícia é que a comida, a alimentação, está intimamente
relacionada à pulsão sexual, que é essa força, essa energia de vida que todos
nós, seres humanos, temos, e que nos mantém vivos.
No início da vida, a pulsão sexual está apoiada sob o
biológico, na autoconservação, mas aos poucos vai se constituindo como energia
em si mesma, e como o que move a todos, o desejo como força maior.
A sexualidade está presente desde o começo da vida, assim
como a agressividade. São as duas forças mais importantes, de vida e de morte.
E estão presentes, o tempo todo em nossa vida. Quando um bebê é amamentado pela
mãe, ele não recebe somente o leite de que necessita para sua sobrevivência
física. Há nesse ato da amamentação um ambiente particular, uma mulher com suas
condições físicas e psíquicas particulares, com sentimentos diversos
constituindo todo um clima muito próprio e que é oferecido ao bebê, que absorve
à sua maneira, tudo que está ali. Então, o leite é oferecido em que condições
emocionais?
Essa relação da comida com o desejo, da comida com o afeto é
muito antiga, é coisa lá dos primórdios da vida. E está presente de tal forma,
tão “automática”, que nem percebemos suas associações em nosso cotidiano.
A fome é energia indispensável para a vida e o ser humano
não tem fome só de comida. Tem fome de existir, de conhecer, de aprender, tem
fome de amar e de ser amado, fome de agredir, de lutar, e assim por diante.
Lembro-me de uma de minhas filhas que, ainda bem pequena, tinha o costume de
dizer, por exemplo: “Mamãe, tô com fome de dormir”, para expressar, na verdade,
seu desejo de alguma coisa. Ela não sabia, na época, conceituar cada desejo com
a palavra que o representava, e então, usava a palavra fome, generalizadamente,
para se expressar. Era só uma criança, mas tinha a sabedoria natural, sobre a
sua sexualidade.
Quantos casais não desembocam em brigas inúteis porque a
mulher, por exemplo, nunca consegue reproduzir “aquela” receita que a mãe dele
fazia quando ele era criança. E por mais que ela siga, obedientemente, a
receita, esta jamais será igual, porque jamais será possível reproduzir, no
máximo se aproximar, do clima afetivo que estava associado àquele prato. A
fome, nesse caso, é de experimentar, através daquela comida, o clima afetivo
que se viveu com a mãe, na infância.
Atualmente, corremos o risco de desejarmos perder a fome,
por causa dessa ânsia frenética de buscarmos o corpo perfeito, sem gorduras,
celulites e estrias. Que corpo é esse, que parece destituído de vida, de
sexualidade, já que não tem o que de mais importante é preciso, o aspecto
humano?
É urgente que não deixemos de pensar na importância da vida,
com toda a sua complexidade, condição que por isso mesmo se torna interessante.
Todos tendemos a nos proteger dessa complexidade, que
provoca muitas angústias. Então, não são poucas as vezes que tentamos escapar
dessas reflexões, transformando tudo em contos da carochinha.
Nós, pais, fazemos isso com nossos filhos, infantilizando-os
eternamente, como se fossem anjinhos puros e inocentes. A escola, muitas vezes
nega as forças sexuais e agressivas que transitam por seus corredores o tempo
todo.
E fazer isso é como jogar um pano em cima, e dizer “Pronto,
isso não existe aqui”.
Sem fome, sem sexualidade, sem agressividade, reduzindo a
vida a pílulas, não iremos muito longe.
Élide Camargo Signorelli – psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAM, Centro de
Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de
Psiquiatria da FCM da Unicamp.
E-mail: elidesig@terra.com.br