Sistema de Ensino Integral
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Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?
Por Élide Signorelli     Atualizado em 31/10/2006 15:37:34  Página 1 de 1    
 Ferramentas
 
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Outro dia, alguém muito preocupado em querer “facilitar” a vida, disse: “Ah, bem que a comida deveria se restringir a pílulas. A gente tomava e pronto, estava alimentada, não precisaria se preocupar com cozinha, comida...”. Como se comida fosse única e exclusivamente algo pertencente ao território do biológico, da sobrevivência física...

A notícia é que a comida, a alimentação, está intimamente relacionada à pulsão sexual, que é essa força, essa energia de vida que todos nós, seres humanos, temos, e que nos mantém vivos.

No início da vida, a pulsão sexual está apoiada sob o biológico, na autoconservação, mas aos poucos vai se constituindo como energia em si mesma, e como o que move a todos, o desejo como força maior.

A sexualidade está presente desde o começo da vida, assim como a agressividade. São as duas forças mais importantes, de vida e de morte. E estão presentes, o tempo todo em nossa vida. Quando um bebê é amamentado pela mãe, ele não recebe somente o leite de que necessita para sua sobrevivência física. Há nesse ato da amamentação um ambiente particular, uma mulher com suas condições físicas e psíquicas particulares, com sentimentos diversos constituindo todo um clima muito próprio e que é oferecido ao bebê, que absorve à sua maneira, tudo que está ali. Então, o leite é oferecido em que condições emocionais?

Essa relação da comida com o desejo, da comida com o afeto é muito antiga, é coisa lá dos primórdios da vida. E está presente de tal forma, tão “automática”, que nem percebemos suas associações em nosso cotidiano.

A fome é energia indispensável para a vida e o ser humano não tem fome só de comida. Tem fome de existir, de conhecer, de aprender, tem fome de amar e de ser amado, fome de agredir, de lutar, e assim por diante. Lembro-me de uma de minhas filhas que, ainda bem pequena, tinha o costume de dizer, por exemplo: “Mamãe, tô com fome de dormir”, para expressar, na verdade, seu desejo de alguma coisa. Ela não sabia, na época, conceituar cada desejo com a palavra que o representava, e então, usava a palavra fome, generalizadamente, para se expressar. Era só uma criança, mas tinha a sabedoria natural, sobre a sua sexualidade.

Quantos casais não desembocam em brigas inúteis porque a mulher, por exemplo, nunca consegue reproduzir “aquela” receita que a mãe dele fazia quando ele era criança. E por mais que ela siga, obedientemente, a receita, esta jamais será igual, porque jamais será possível reproduzir, no máximo se aproximar, do clima afetivo que estava associado àquele prato. A fome, nesse caso, é de experimentar, através daquela comida, o clima afetivo que se viveu com a mãe, na infância.

Atualmente, corremos o risco de desejarmos perder a fome, por causa dessa ânsia frenética de buscarmos o corpo perfeito, sem gorduras, celulites e estrias. Que corpo é esse, que parece destituído de vida, de sexualidade, já que não tem o que de mais importante é preciso, o aspecto humano?

É urgente que não deixemos de pensar na importância da vida, com toda a sua complexidade, condição que por isso mesmo se torna interessante.

Todos tendemos a nos proteger dessa complexidade, que provoca muitas angústias. Então, não são poucas as vezes que tentamos escapar dessas reflexões, transformando tudo em contos da carochinha.

Nós, pais, fazemos isso com nossos filhos, infantilizando-os eternamente, como se fossem anjinhos puros e inocentes. A escola, muitas vezes nega as forças sexuais e agressivas que transitam por seus corredores o tempo todo.

E fazer isso é como jogar um pano em cima, e dizer “Pronto, isso não existe aqui”.

Sem fome, sem sexualidade, sem agressividade, reduzindo a vida a pílulas, não iremos muito longe.


Élide Camargo Signorelli – psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAM, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

E-mail: elidesig@terra.com.br

 
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