Atualizada quinta-feira, 8 de julho de 2010
Giuseppe Tornatore, diretor de “Cinema Paradiso”, fez o filme “Estão todos bem”, em 1990, contando, na época, com Marcelo Mastroianni para o papel principal. Quem quiser pode assistir, agora, à refilmagem dirigida por Kirk Jones e protagonizada por Robert De Niro. O filme conta a história de um homem às voltas com a morte de sua mulher e os reflexos disso em sua vida bem como na de sua família. Frank Goode (De Niro) tinha quatro filhos adultos, todos morando fora da cidade em que ele residia com a mulher. O filme em si é muito simples, de leveza que beira ao superficial. No entanto, além do excelente desempenho de Robert De Niro, o roteiro oferece elementos para algumas observações que aproveito para compartilhar com o leitor.
O que primeiro chama minha atenção é a solidão na qual o homem mergulha, embora tente dela escapar, ao mesmo tempo. Estado inerente à nossa condição, algo que tentamos driblar a vida inteira, ela está à espreita, e se revela em algum momento com toda sua crueza. A solidão que se apresenta na meia-idade e decorre de alguns desligamentos é como um ato de ir desvestindo os trajes que compunham a identidade da pessoa. No caso do filme, Frank, com a morte da esposa, é despido do papel de marido e irá se defrontar em seguida com a paternidade, papel que estava escorado à presença ativa de sua mulher.
O homem tenta reunir os filhos, ação costumeiramente providenciada pela esposa. Seu discurso reafirma isso nos momentos em que diz: “Minha mulher era quem procurava os filhos e agora eu tenho de continuar essa tarefa”, algo assim. Um segundo aspecto que me atrai é o caráter mágico que Frank atribui a essa busca. Ele parece acreditar que, se deseja encontrar os filhos, basta ir atrás deles e certamente irá encontrá-los. Ele quer fazer uma surpresa e nem percebe que isso se inicia com a sua própria iniciativa, a de procurar por eles, ação que ele só pode empreender quando a mulher sai de cena.
É interessante vermos aqui o que acontece em algumas famílias em que a mulher se apropria inquestionavelmente dessa tarefa de arrebanhar os filhos, de trazê-los à mesa e de alimentá-los com sua atenção e dedicação. O homem parece entender que isso é missão de mãe e ao pai restaria beber dessa fonte, cômoda e magicamente. Os filhos estão ali e ele não precisa fazer nada para isso. A mulher, nada ingênua nesse assunto, pode até se queixar da inércia do marido, mas também se regozija pelo poder que adquire dentro da família.
O quadro está feito, a reunião está posta, mãe e filhos de um lado e o pai do outro. Muitas vezes a linha que os separa é invisível a olho nu, mas ela está ali, marcando suas distâncias. Não há como ser diferente, as relações, para acontecerem, tem de ser investidas por ambos os lados. O interesse, a atenção, a dedicação têm de ser mútuos. Já ouvi pai indignado porque os filhos, quando ligam para casa, procuram pela mãe e ao pai cabem apenas os cumprimentos iniciais. Ele não entende que essa iniciativa é um reflexo e retribuição de uma ação contínua de tecer o laço que os unirá. O vínculo não acontece magicamente, ele é construído dia após dia, ponto por ponto.
O último aspecto que desejo salientar está ligado, ainda, a isso. Essa relação construída a partir da interação contínua é o que proporciona algum conhecimento mais profundo entre seus participantes.
Os filhos que Frank procura não são os reais, digamos, mas aqueles que ele a vida toda desejou e tratou de enxergar. Ele, como qualquer pai ou mãe, nutre expectativas em relação aos filhos. O problema é que quando isso se impõe de forma tão contundente e narcísica acaba por criar o que também é muito frequente nas famílias: a mentira, o segredo, e o abismo entre as pessoas.
Os verdadeiros filhos de Frank – e reconheço que ao falar “verdadeiros” já me meto numa encrenca – não são os filhos que ele idealizou. Ao contrário disso, carregavam consigo a decepção e o desejo de não serem o que o pai esperava. O desejo deste, tão intenso e autoritário, dificultou aos filhos abrirem espaços para buscarem realizações a partir de seus próprios anseios. Todos moravam longe da família, certamente para garantirem alguma sobrevivência às suas identidades.
A velha e rota justificativa de que os pais sabem o que é melhor para os filhos cria a armadilha de aprisioná-los à sua teia narcísica, sabotando seus direitos de descobrirem e de escolherem, também a partir de suas experiências, o que querem ser e o que desejam para suas vidas.
Um dos filhos de Frank está morto. Morrem os filhos idealizados. Frank, nessa viagem para fora de seu narcisismo, acaba se encontrando com os filhos reais.
Élide Camargo Signorelli
Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.
e-mail: elidesig@hotmail.com
Fonte: Sistema de Ensino Integral