Sistema de Ensino Integral
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Psicologia
Pais: do silêncio ao discurso
Atualizada quinta-feira, 17 de junho de 2010

Não é de hoje que ao conversar com adolescentes descubro o quanto sabem pouco sobre a história de seus pais. Os níveis de conhecimento variam, mas existem alguns jovens bastante alheios em relação às origens da família e a informações que dizem respeito à vida dos pais, de forma mais minuciosa. Observo que esses jovens, quando questionados em relação à atividade profissional dos pais, não conseguem ir além de poucas palavras. Nesse momento, parecem até um tanto constrangidos pela exposição de sua ignorância, mas ao mesmo tempo também dão a entender que aquilo não está fazendo falta e que basta saber que o pai é engenheiro mecânico, por exemplo, e que passa o dia todo sentado diante do computador respondendo a e-mails. Trata-se de algo como se fosse uma foto em duas dimensões: o pai sentado em frente do computador o dia todo, respondendo aos e-mails. Só.
Intriga-me não perceber ali curiosidade maior, desejo de penetrar tal foto e retirá-la dessa rasa condição. Perguntas como “Meu pai fica, mesmo, sentado o dia todo?”, “Que e-mails são esses? De onde vem e para onde vão?”, “Como ele chegou àquela função?”, “Qual o lugar de sua função dentro da empresa?”, “Que relações ele estabelece com as pessoas em seu trabalho?” e muitas outras inflariam a foto inicial de forma a lançá-la a um estado de três dimensões, com movimento, tempo, emoção, palavras e outros elementos vivos.
Há um buraco nesse tecido cuja trama tem um quê de superficialidade e de magia, à medida que a coisa aparece pronta, afrontando o tempo e seu processo. O que acontece nessas relações em que pais e filhos não se conhecem?
Penso que parte dessa responsabilidade está nas mãos de uma cultura que tratou de levar o pai para fora dos limites domésticos e criou, assim, um abismo sem ponte. Como ele saiu de casa para trabalhar, ele deixou de existir ali, e o que acontece lá fora fica quase na condição de tabu. Há uma cisão entre casa e mundo, dois mundos que não são ligados. É também uma cultura de resultados: “Trouxe o dinheiro? É o que importa”. Como isso acontece, quais as ações envolvidas, as providências, as facilidades e as dificuldades, os prazeres e os sofrimentos, tudo que faz parte desse espaço e que humaniza aquele ser é empurrado para algum canto obscuro ou fica detido na soleira da porta.
O silêncio desse buraco é compartilhado por todos. Pais e filhos são aliados nesse acordo inconsciente de manterem a situação nesse pé, um pé que não sustenta, porém, a possibilidade de continuidade das gerações, pautada em forma mais realista, palpável e dinâmica. Todos se põem muito obedientes, pois aprenderam que assim deve ser: o avô não fala, o pai se cala e o filho silencia. O oposto também acontece, quando os pais contam suas histórias de vida, às vezes verdadeiros calvários, dignos, sem dúvida, de respeito, mas que ao serem repetidos, em todo momento que o filho está revelando fraqueza de atitudes, soa mais como um triunfo sobre este, uma comprovação de potência, do que um estímulo ou encorajamento. O peso da história idealizada e heroica cai sobre os ombros deste e ocupa tamanha dimensão de grandeza, que torna muito difícil a este acreditar que seu caminho poderá ser tão valioso quanto o dos pais. Ele poderá encontrar dificuldades para se desenvolver porque a referência que possui está muito distante de sua pequena e inicial caminhada.
Quando o que resta das experiências de vida é uma sensação humilde de cumprimento e satisfação, livre de ressentimentos e ódios, as histórias são contadas para formar uma rede que legitime, reassegure e ofereça ao filho os fios de uma grande meada que começou a se formar tempos atrás e que atravessa, agora, seu caminho. São os fios das origens, das raízes que sustentarão a árvore da família.
Os pais têm de romper o silêncio para criarem com seus filhos a cadeia familiar, com histórias que se discriminam e se entremeiam, alternativamente. São significantes que encorpam e dão sentido às trajetórias de todos os membros da família. Isso é fundamental para que o jovem possa construir sua vida, partindo de uma bagagem histórica, cultural e social. O desconhecimento de nossas origens provoca em nós uma sensação de vazio que se desloca do passado para o futuro, tornando-o incapaz de ser atraente e de ser a sede dos sonhos que precisam ser projetados.
 
Élide Camargo Signorelli
Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.
e-mail: elidesig@hotmail.com
 

Fonte: Sistema de Ensino Integral

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