Sistema de Ensino Integral
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Psicologia
Não precisa ser campeão, basta ser gentil... e consciente
Atualizada quarta-feira, 19 de maio de 2010

Transitando pelas ruas de Campinas, coisa que, dependendo do horário e lugar, já não é simples, dei de cara com uma faixa grande que dizia: TRÂNSITO GENTIL: SEJA CAMPEÃO, DIRIJA COM ATENÇÃO. Aquilo me deixou pensativa. Campeão?

No cotidiano do trânsito podemos ver como as pessoas pensam e como reagem ao que vão encontrando pelo caminho. Podemos nos deparar com semáforos fechados, desvios de caminho, gente oportunista que ultrapassa indevidamente, gente jovem e saudável que se apropria das vagas de idosos e deficientes, congestionamentos e outros obstáculos que nos seguram, nos atrasam e provocam nossa paciência. E as manifestações são várias, indo desde intolerância, impulsividade, irresponsabilidade, até falta de educação mesmo.

Estar dentro do carro parece transmitir a algumas pessoas certa proteção que lhes dá o direito de liberarem sua agressividade. Será que se estivessem fora do carro, numa fila, por exemplo, sem essa armadura, teriam a mesma coragem? Ou essas pessoas só agem assim quando estão se sentindo potentes ou “campeãs” dentro de seus carros?

Sem entender bem qual a proposta daquela faixa estendida na rua, para voltar ao fato que motivou este texto, eu me perguntava, então, por que precisamos ser campeões nio trânsito. Se se tratava de algum apelo para que os motoristas se convençam de que dirigir no trânsito é um verdadeiro ensaio de responsabilidade e controle, por que não apelaram para a humildade? Por que trouxeram a imagem do campeão para as ruas? Engraçado! Parece um jeito de enganar aquele que não quer saber dessa história de que na vida temos que ceder e que viver como cidadão civilizado depende da aceitação de certas regras e contenções. Então, chega-se para essa pessoa e diz: “Olha, você não deixa de ser um campeão se conseguir se controlar no trânsito, se tiver paciência e obedecer algumas regrinhas. O sucesso estará aí, na conquista dessa vitória!”. Com isso, está feito o discurso “para campeão ouvir”. Discurso bom, nos dias de hoje, tem de ter as palavras sucesso, vitória, fama, campeão e outras de sentido similar.

Pensando nisso, acabei me lembrando da formatura de pré de minha filha mais velha. Ela estudava numa escola particular, dessas que ofereciam ensino apenas até o pré, depois do qual as crianças tinham de ir para outra escola. Na solenidade da formatura, as crianças, então com apenas seis anos, cantaram We are the champions, música conhecida, da banda Queen. Elas repetiam várias vezes a palavra championscampeões – e nós, pais, estávamos todos orgulhosos e esperançosos de que nossos filhos fossem mesmo campeões e a vida fosse contínuos segmentos de campeonatos. Hoje, ao relembrar essa cena, sinto certa tristeza, além da óbvia saudade.

Sei que há alguma preocupação dos sistemas educativos de levar educação no trânsito para as crianças. E penso ser essa uma iniciativa importante para elas. Sei também que a imagem do campeão pode ser um símbolo importante como auxílio à formação da persistência, da força de vontade, do desejo de crescer e se desenvolver. O ser humano precisa de referências e os ídolos e heróis reúnem em si os elementos de que precisamos, como coragem, por exemplo, para enfrentar as adversidades da vida. Mas me pergunto até onde esses símbolos são utilizados para o fortalecimento do ego e a partir de onde passam a ser alimento para o narcisismo? Onde está a linha que separa uma intenção da outra?

Buscando mais informações sobre o significado daquela faixa de rua, tomei conhecimento de que se trata de uma iniciativa da empresa Porto Seguro, que, com o apoio da prefeitura, através da Setransp, criou uma campanha que visa a melhorar o trânsito, conscientizando o motorista, de forma bem humorada, sobre suas responsabilidades. Entre outras, algumas das frases são: “Tá nervoso, vai pescar.”, “70 me passar 100 atrapalhar.”, “Não buzine, acorde mais cedo!”.

A faixa do campeão foi retirada e no lugar colocaram outra: “Motorista consciente, trânsito decente”. Essa frase já me pareceu uma evolução da anterior. De campeão, o motorista passa a ser consciente. E a consciência é reflexo do desenvolvimento, do trabalho mental de tomar ciência sobre algo. A consciência nos aproxima da realidade e é um passo à frente na direção do amadurecimento.


Élide Camargo Signorelli

Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

e-mail: elidesig@hotmail.com

Fonte: Sistema de Ensino Integral

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