Atualizada segunda-feira, 10 de maio de 2010
Por ter a oportunidade de acompanhar alguns movimentos do Colégio Integral, acabam chegando aos meus ouvidos coisas que me põem a pensar.
Todo ano o colégio promove, dentro do seu calendário escolar, a gincana, essa festa de juventude, criatividade, inteligência e emoção. Para mim, é uma experiência que vale mais que mil apostilas. Digo isso porque é ali, no campo, que as relações se desenrolam em meio a muitos estímulos. É uma experiência viva e ao vivo.
Logo no começo do ano letivo – se não foi antes disso – boa parte dos alunos se precipitou a tomar providências para a gincana. A festa adquiriu tamanha grandeza e importância que os jovens já não conseguem conter sua excitação, que não cabe, então, nos limites costumeiros do cronograma. Ouvi dizer que uma equipe já tinha em sua poupança tantos reais e que a outra já coletava produtos para a prova beneficente. A gincana não havia sido inaugurada, formalmente, mas já estava em andamento há algum tempo. Minha avó diria: “A carruagem está à frente dos bois”. Mas deixemos minha avó e sua carruagem e nos reportemos a Bion.
Psicanalista inglês, Wilfred Ruprecht Bion é autor importante na literatura psicanalítica e muito contribuiu para a expansão da teoria e da técnica. Dentre vários estudos, se ocupou da personalidade psicótica, mas também trouxe reflexões interessantes sobre o papel do analista na relação com o paciente.
Uma de suas contribuições está na atitude que o analista deve sustentar, quando está com seu paciente, e que tem a ver com a memória e o desejo. Mas o que tem a gincana a ver com esse tal Bion? Deixe-me explicar.
O psicanalista dizia que a memória é sempre enganadora, porque forças inconscientes, desejos e fantasias interferem na maneira de olhar a situação e consequentemente de retê-la. Se aquela situação à minha frente expressa coisas que me provocam angústias, posso interpretá-la conforme minha capacidade de tolerar e de enfrentar angústias. As distorções, os desvios, as seleções do material são reações de defesa frente àquilo que me perturba. Se costumo enxergar tudo cinza, todos os outros tons que aparecem à minha frente passarão desapercebidos. O grau de distorção, digamos, varia, conforme a maturidade e a capacidade de fazer contato mais profundo com as situações. Bion acreditava que o analista deveria, se não esquecer, conter-se em relação ao que sabia sobre seu paciente. Dizia que o ideal seria que ele esperasse pelo paciente contando com o desconhecido que poderia aparecer ali, pois isso abriria a oportunidade de emergirem novas descobertas. Numa relação em que o analista já sabe que quem chegará no próximo horário é “aquele paciente que vai falar tal coisa, com tal jeito e com prováveis associações”, não há muito espaço para que as coisas aconteçam de forma diferente. E com isso perde-se a criatividade e a expansão do conhecimento, além da possibilidade de uma libertação das amarras que naturalmente aprisionam a pessoa. Seria necessário, segundo Bion, que o psicanalista buscasse um estado mental em que a cada sessão ele sentisse que nunca tinha visto aquele paciente antes.
Da mesma maneira são os desejos. Eles existem, evidentemente, mas deixam de ser expressões interessantes e necessárias quando atravessam o espaço do outro que procura seu caminho. Se o analista nutre muitos desejos em relação ao seu paciente – de que ele vença, de que se cure, de que alcance tal conquista, etc. – pode estar impondo suas próprias expectativas e impedindo que a pessoa se encontre com seus anseios, a seu tempo e com sua legítima subjetividade.
Voltemos, finalmente, à gincana. Esse ano, a equipe organizadora, formada por professores, orientadores e diretores, resolveu modificar certos aspectos dessa estrutura que já vinha há anos acontecendo de maneira muito semelhante e repetitiva.Na intenção de tornar a atividade mais dinâmica e principalmente renovada, estabeleceu, então, algumas mudanças.
Qual não foi a surpresa de muitos alunos que, com memória e desejos saturados, já estavam com suas carruagens a meio caminho andado. Mas não alertaram para o fato de que o caminho, nesse ano, poderia ser outro. Usaram sua memória para sedimentar sua experiência num terreno e fixá-la definitivamente naquela estrutura. A gincana só poderia ser daquele jeito, como vinha sendo! E essa era a única verdade absoluta! Da mesma forma, usaram seu desejo excessivo de ganhar, afrontando, então, os limites da situação. E ao encontrarem um sinal de PARE e de DESVIO À FRENTE se surpreenderam.
Aí está um bom exemplo do quanto é desejável que busquemos, sempre, uma condição mental de maior flexibilidade possível. Discursos que trazem depoimentos prontos, verdades e pré-concepções são perigosos para a saúde da mente. Só provocam rigidez, imobilidade e repetição.
Às vezes gostamos de dizer que tal situação nos é familiar, que conhecemos muito bem aquela pessoa, como se estivéssemos dizendo algo que, obviamente, só pode ser julgado como positivo. Porém, se essa declaração estiver a favor de que não haja lugar para o novo e o desconhecido, esqueça. Como dizia Bion, sem memória e sem desejo.
Élide Camargo Signorelli
Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.
e-mail: elidesig@hotmail.com
Fonte: Sistema de Ensino Integral