Atualizada sexta-feira, 12 de março de 2010
Fico admirada de ver como as prateleiras das livrarias estão lotadas de livros de autoajuda. Vários dos títulos prometem coisas como “Melhore sua vida”, “Como ajudar a si mesmo”, “Vença seus medos”, “Como fazer amigos”, “Emagreça em 10 capítulos”, “Convivendo com a depressão”. De A a Z os livros atendem, provavelmente, à maioria das dificuldades e necessidades humanas.
A literatura de autoajuda é um tipo de literatura marginal que surge no final do século XX, com a intenção de proporcionar às pessoas um domínio sobre seu corpo e sua mente. Em geral, trata-se de material de fácil leitura e compreensão e em alguns casos beira ao estilo manual, ou catecismo, com regras, medidas ou passos que, seguidos à risca, levarão àquilo que se pretende encontrar, seja a cura ou a procura. E, justamente por isso, é atrativa e sedutora, pois, embora se tenha de seguir as fórmulas ou caminhos propostos, o estilo manual alivia para o leitor a responsabilidade de inventar seu próprio caminho. Como temos medo da liberdade que a responsabilidade implica, nos jogamos, aliviados, ao colo do sedutor.
Toda vez que tenho acesso à leitura ou palestras desse tipo experimento certo mal-estar. É como se não importasse a minha subjetividade, minha história. Fico tentando conversar com o livro e explicar-lhe que, para aderir a certas indicações, eu teria de enfrentar e superar alguns obstáculos internos. Por exemplo, posso dizer a uma mãe que ela deve estimular seus filhos, desde muito cedo, para uma atitude criativa, com iniciativa e independência. Mas, se essa mulher possui personalidade depressiva, ela terá dificuldades em manter, por muito tempo, essa postura pró-ativa. Da mesma forma, como dizer a um alcoólatra que ele deve dialogar com os filhos adolescentes? Ambos, mãe depressiva e pai alcoólatra, tentarão seguir as orientações mágicas, mas logo esbarrarão em seus conflitos, e penso que não passarão do terceiro item, sem experimentarem a sensação de que não cabem, obviamente, naquela forma.
Quero dizer, com isso, que um aspecto que a literatura de autoajuda não considera é que o ser humano possui um inconsciente, esta instância da nossa mente, em que ideias insuportáveis, desejos e pulsões são reprimidos, além das experiências que não encontraram representação ou significado para serem conscientes. Podemos perceber manifestações do inconsciente nos sonhos, nas fantasias que criamos associadas às experiências, nos atos falhos (quando queremos dizer uma coisa e acabamos falando outra) e nos sintomas físicos ou psíquicos. A psicanálise estuda esses fenômenos e, apesar de entender o ser humano como um ser pertencente a um lugar coletivo, tem, ao mesmo tempo, suas particularidades, sua história própria e única.
Os livros de autoajuda livram a pessoa do incômodo de pensar em coisas perturbadoras, em angústias, culpas e inevitáveis conflitos. Só que, sem esse reconhecimento e enfrentamento, não se podem adotar comportamentos consistentes e verdadeiros. Os efeitos tornam-se, assim, superficiais e muito frágeis, desabando aos primeiros desafios. Não somos seres absolutos e sim ambivalentes!
A obrigação de buscarmos a felicidade não pode custar o achatamento daquilo que nos faz humanos. E a história, a subjetividade, e todo o arsenal emocional constroem essa humanidade. Além disso, a própria relação com o outro é condição que não se pode desconsiderar. Não se trata, simploriamente, de uma mãe e uma filha, um empregador e um empregado, um professor e um aluno, mas sim daquela mãe com aquela filha, daquele empregador com aquele empregado e daquele professor com aquele aluno. Cada relação, pode até possuir semelhanças universais – e a psicanálise não nega isso –, é única, pois é construída com base naquelas subjetividades específicas. Por isso, certas regras não emplacam em muitos casos e parecem funcionar em muitos outros, apenas temporariamente ou em nível raso de profundidade.
É preciso saber quem é o sujeito que lê e ouve, quem está por trás daquilo que é lido e ouvido? Como lê e ouve e o que faz com o que lê e ouve? É claro que há livros e livros. Um livro de autoajuda pode ter o mérito de nos chamar a atenção para o fato de que não precisamos complicar tudo e podemos nos encorajar a iniciativas mais espontâneas ou até a mudanças. Mas a amplitude disso se limita, penso, ao ponto em que o inconsciente e a subjetividade humana têm de ser incluídos.
Alguém pode dizer que os livros de autoajuda, bem ou mal, estão ali na prateleira, e as pessoas necessitadas de apoio podem facilmente ter acesso a eles. E a psicanálise, será que suas condições, algumas vezes elitistas, não abandonam os que não podem alcançá-la? Essa é uma questão a ser pensada e repensada. Apesar do cuidado que pensar numa psicanálise aplicada exigiria, é hora, ao mesmo tempo, de olhar para essa falta.
Élide Camargo Signorelli
Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.
e-mail: elidesig@hotmail.com
Fonte: Sistema de Ensino Integral