Sistema de Ensino Integral
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Psicologia
Você é um homem ou um rato?
Atualizada quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Acredito que a expressão acima é conhecida por muita gente. É pronunciada toda vez que se duvida da capacidade de uma pessoa de bancar sua condição humana, e ela ameaça descambar para a animalidade, no sentido de agir sem pensamento, por impulso e sem emoção.

O rato é um animal alvo de desprezo, já que parece ser uma criatura oportunista das situações caóticas e de desequilíbrio. Ele gosta da sujeira, da confusão, das inundações, dos lugares obscuros. E acredito que por isso é escolhido para representar o oposto do humano. Apesar de nascermos gente, nem todas as pessoas se tornam humanas, no verdadeiro sentido da palavra. Há algumas condições para isso. Bion, psicanalista inglês, fala muito bem sobre isso. Vou tentar sintetizar algumas ideias que ele explorou.

Segundo ele, nós contamos com duas condições importantes para evoluirmos para o humano. Uma delas se refere às impressões sensoriais como uma possibilidade de contato com as coisas. Temos os cinco sentidos − a audição, o olfato, a visão, o paladar e o tato − com os quais experimentamos as diversas sensações na relação com as pessoas, ou com a vida no geral. Vejamos, por exemplo, os sites de relacionamentos pela internet, em que nem todos os sentidos são usados na comunicação entre as pessoas. Usa-se a palavra escrita, portadora dos pensamentos e sentimentos, mas faltam o olhar, a audição, o tato, a visão e o olfato. Em geral, depois de um tempo conversando pela internet, as pessoas prosseguem propondo um encontro, ou a conversa pelo telefone, onde pelo menos mais um recurso, a fala, pode entrar como colaborador do contato. E esta revela a voz, com seu timbre próprio, ritmo, entonação, elementos que já vão dando notícias mais detalhadas sobre a pessoa. Na internet não é possível conhecer esses detalhes, e assim a situação fica muito pobre de elementos, e muito concreta, se ficar limitada apenas a isso. E haveria, segundo Bion, um sexto sentido, a consciência, cuja função seria integrar e reconhecer as sensações iniciais e dar a elas um sentido. O rato possui os cinco sentidos, mas não possui a consciência, que é patrimônio do humano. Por isso, o contato que os animais fazem com a vida acontece no concreto, por um impulso vindo de sua natureza animal, digamos. Os animais não têm outra escolha a não ser agirem pelo instinto. Não são livres como o ser humano. Já a consciência nos dá uma possibilidade de irmos além. E a fantasia, que é a expressão mental dos impulsos, dá as infinitas formas com as quais estes podem se expressar e revelar.

Outra condição remete à experiência emocional, essa em que as emoções trarão sentido para as sensações sobre as impressões sensoriais. A experiência emocional decorre dos conteúdos mentais relacionados com as emoções de amor e ódio, essas que experimentamos em nossas relações. Sem isso a relação permanece no concreto. Por exemplo, podemos ouvir de um adolescente – mas também de muitos adultos – que ele vai sair para a noite para beijar bocas. Isso é o concreto, coisa que está nos terrenos apenas das impressões sensoriais. Para isso evoluir para a experiência emocional, seria preciso reconhecer que não se trata apenas de pedaços de corpos, bocas, mas de pessoas com nomes e sobrenomes, com histórias particulares, com origens, que trocam sentimentos diversos e que no contato trazem sua bagagem emocional. Evoluir para essa condição seria o mesmo que o adolescente dizer que vai sair à noite para conhecer alguém e experimentar com ele as sensações físicas prazerosas, mas também conhecer a pessoa, conversar com ela e sentir emoções ao estar com ela. E aí a situação sai do concreto e adquire uma dimensão mais integrada. A experiência emocional se dará a partir da possibilidade da pessoa de aprender algo com esse contato, de saber mais sobre si mesmo e sobre o outro com quem esteve. A isso se dá o nome de vínculo. O vínculo designa uma experiência emocional pela qual duas ou mais pessoas estão relacionadas entre si.

Pensando nas primeiras relações da vida de uma pessoa, lá nos primórdios, a criança vai se tornar humana a partir da relação com a mãe. O sujeito surge na relação com o outro. O bebê não existe sozinho. O cantor Raul Seixas, em sua música, sabiamente disse: Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade. Essa possibilidade de a mãe sonhar a vida para tirar seu bebê da concretude, do factual, é a essência da humanização.

As pessoas que dizem que filho dá trabalho provavelmente estão num estado mental em que tudo é visto no concreto: dar o peito, tirar o peito, pôr fralda, tirar a fralda, e assim por diante, numa sucessão de fatos concretos. Para a mãe que sonha, é possível transformar os fatos em poesia, arte, música, símbolos, enfim. O leite não é mais o leite e sim o alimento afetivo, também, que vai cheio de esperança, confiança e carinho, para dentro da boca do bebê e, por extensão, para dentro de sua mente e alma.

Uma vida inteira pode ser construída a partir de uma aquisição incessante de possessões concretas: são bocas, corpos, objetos, bens materiais, líquidos que já não são mais o leite do início da vida e outros. O desfecho disso é muito triste, comenta o psicanalista Paulo Cesar Sandler. Provavelmente essa pessoa foi um bebê nutrido principalmente com leite e só, com os componentes físicos desse líquido branco. Essa nutrição, como disse o autor, não se acompanhou de um “algo mais”, não saiu do sensorial, do físico e do concreto. É o componente psíquico, emocional, que colorirá as sensações dando a elas a possibilidade de conhecimento e crescimento.

Bion se refere à incapacidade de certas pessoas de se sentirem amadas, e como equacionam comida a amor. E a comida material – o líquido leite – será uma interminável série de objetos que serão vorazmente colecionados por elas durante sua vida: bebidas, drogas, bocas, objetos de consumo e outros.

Não basta que a mãe amamente, mas o modo também como o faz é o essencial. Bion, em uma de suas formulações mais antigas, disse: “conceitos sem intuição são vazios”. O leite é o conceito, o concreto. O leite dado com amor, confiança e criatividade é o princípio da intuição e é o que preenche a experiência de sentido. Mais tarde, não basta estar com as pessoas e os objetos, mas o modo de estar com elas e com esses objetos é que vai dizer se houve ou não experiência emocional.

E é isso que diferencia o homem de um rato.


Élide Camargo Signorelli

Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

e-mail: elidesig@hotmail.com

Fonte: Sistema de Ensino Integral

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