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Psicologia
O que quer Geisy?
Atualizada quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Há um mistério em torno da mulher que atravessa séculos e provavelmente jamais será desvendado.

A psicanálise é uma ciência que vem se desenvolvendo e se atualizando para aprofundar-se no conhecimento sobre o ser humano, tanto o homem quanto a mulher. Freud, o pai da psicanálise, iniciou suas descobertas sobre o psiquismo humano, analisando mulheres. Como homem e como pertencente à sociedade burguesa do século XIX, ele via a mulher, no início de suas investigações, a partir do referencial masculino. O homem, possuidor de um pênis, trazia consigo o máximo do valor e do poder diante da sociedade, e à mulher restava o entendimento de que lhe faltava, então, os atributos que a tornariam igualmente valorizada. O mistério se concentrava, assim, no que faltava à mulher.

A sexualidade feminina estaria ligada à passividade; e a masculinidade, à atividade. Conforme avançou seus estudos, Freud muda o eixo a partir do qual situava o desenvolvimento da sexualidade, separando o homem da mulher, entendendo que esta teria um caminho psicossexual próprio. A questão da anatomia deixou de ser um referencial determinante para o destino da identidade sexual. O corpo biológico – feminino ou masculino − sinaliza um caminho, mas a identidade sexual é construída a partir dos significados que o ser humano atribui às experiências emocionais. E todos sabemos o quão complexa é a afetividade, assim como a mente humana.

Hoje se procura entender o homem e a mulher como ambos possuidores de aspectos ativos e passivos e de atributos intelectuais e emocionais envolvidos no desafio de lidar com as emoções, impulsos e conflitos constantemente presentes em suas experiências emocionais. Mesmo assim em torno da mulher persiste uma sensação de enigma e mistério.

A psicanalista Suely Gevertz, em artigo que comenta o livro de Malvine Zalcberg, Amor Paixão Feminina, reflete sobre o mistério, afirmando que ele se deve ao fato de a mulher ser a única na espécie humana que pode conceber vida. Por trazer consigo o mistério da criação, essa condição tão impactante, a mulher, por isso seria tão pouco entendida pelo homem e também pela própria mulher.

A relação com a mãe, para a mulher, é fundamental em seu desenvolvimento psicossexual, considerando que o primeiro objeto de amor da menina é a mãe. Como Freud afirmou em suas investigações sobre a feminilidade, a menina tem o desafio de abandonar a mãe como objeto de amor e voltar-se para o pai. O psicanalista D.Winnicott disse que, para toda mulher, há sempre três mulheres: ela menina, sua mãe e a mãe da mãe.

Intrincados são os caminhos, portanto, da feminilidade, e se estou introduzindo, de forma bem simplista, essas questões sobre a mulher é para embasar minha reflexão sobre o episódio ocorrido com a estudante Geisy Villa Nova Arruda, aluna da Uniban, Universidade Bandeirante.

Preparada para sair com o namorado após as aulas, a moça colocou um vestido que chamou a atenção dos estudantes, rapazes e moças, que armaram um mutirão de insultos, ataques, e ameaças de estupro e linchamento. Geisy teve de deixar o prédio protegida por seguranças. A violência foi tremenda. O assunto vem sendo comentado pela mídia durante toda a semana. Muito já se falou a respeito, partindo-se de inúmeros vértices, na tentativa de entender o que aconteceu.

Fiquei pensando o quanto a mulher mobiliza emoções fortes, contraditórias e irracionais, não só nos homens, mas nas mulheres também. O que podemos ressaltar desse episódio? Provavelmente muitos sentimentos foram experimentados com a presença dessa moça, portadora do vestido insinuante. Mas acredito que o medo pode ter sido o sentimento mais forte. Sim, medo do que aquela mulher provocou em cada uma das pessoas que ali estavam.

A mulher vem lutando há muitos anos contra mitos e preconceitos em torno de sua imagem. Ser tomada como frágil, passiva e sem direitos não foi uma simplista e inocente forma de pensar e sim uma provável manipulação para abafar na mulher tudo que ela emana, irradia, de sensualidade, atividade, criação e afetividade. Isso assusta demais, porque traz àquele que está diante dela algumas questões: E eu, o que sou diante dessa mulher? E o que posso com essa mulher? No desespero, refém do medo extremado de não dar conta dessa complexidade, a saída pode ser insultar, violentar, aprisionar e inibir, expulsar tão perturbador sentimento. Assim, o coração volta a bater, a respiração se equilibra, e não se tem de se ocupar com os desafios que recaem sobre si ao estar diante da criatura tão intrigante, a mulher.

 


Élide Camargo Signorelli

Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

e-mail: elidesig@hotmail.com

Fonte: Sistema de Ensino Integral

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