Sistema de Ensino Integral
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Psicologia
Professor em crise
Atualizada terça-feira, 10 de novembro de 2009

Na Folha de S. Paulo de meados de outubro, o articulista Ruy Castro, na coluna que nomeia como Ao Mestre, com desprezo, comenta o episódio ocorrido em março, na zona sul de São Paulo, num colégio de classe média, em que o professor foi desacatado em sala por três alunos. Ao dar queixa na diretoria, a escola não apoiou o professor e sim os alunos. O professor pediu demissão e sofre, agora, de síndrome do pânico. A orientadora da escola, a única a apoiá-lo, foi demitida.

Esse episódio é mais um entre tantos outros que presenciamos ou que ouvimos nos últimos tempos. Falo do professor, mas não é ele, propriamente, que está em crise e sim a autoridade, de forma geral. Uma autoridade que se baseava no modelo burguês do século XIX, beirando ao autoritarismo, ao perder essa característica, ainda não encontrou bases novas para se assentar. Penso que há muito que refletir sobre esse tema, mas vou destacar um aspecto que julgo importante. Quando um adulto se relaciona com uma criança ou um adolescente ele tem certo desafio pela frente. Trata-se de um contato que evoca memórias infantis ou de tempos já vividos. Para o adulto, que está tentando se sustentar em sua condição, relacionar-se com a criança ou o adolescente é muito mais que estar ali, então, com uma presença física.

Estar com o jovem é uma experiência que mobiliza as estruturas emocionais, digamos, pois o processo de desenvolvimento emocional é árduo, envolve muitas renúncias, escolhas, atitudes e enfrentamentos. O adulto – se chegou à maturidade – empreendeu um longo e complexo caminho cheio de armadilhas que o incitam a desviar, pular trechos, voltar pra trás e desistir. Tornar-se adulto depende de que ele aceite deixar as posições infantis, renunciando ao conforto que de certa forma estas lhe proporcionavam. E esse contato com o jovem é sempre um convite a visitar, novamente, lugares abandonados, muitas vezes com muita resistência e dor. É difícil crescer, difícil deixar de ser criança e especialmente jovem.

As pessoas têm tentado dar nomes glamorosos para a velhice, como melhor idade, mas todos sabem que envelhecer é um duro enfrentamento, sob vários aspectos.

A atitude de autoridade que o adulto tem de sustentar diante da criança e do jovem depende muito da consciência e da forma com que ele processou seu desenvolvimento pessoal e atravessou as etapas e os ciclos da vida.

Os pais, o professor, o psicólogo e todos os referenciais de autoridade são invocados a ocupar um lugar fundamental para que a criança e o jovem possam, por seu lado, viver a experiência de serem criança e jovem, importante para a aceitação, mais à frente, de que chegou o tempo da renúncia. Lembro-me de uma mulher que me contou, certa vez, que trazia consigo um sonho nunca realizado de viver aquela cena da criança sentada confortavelmente no banco de trás do carro, olhando a paisagem pela janela, sem ter de se preocupar com quem estava dirigindo e como estava dirigindo. Ela, muito precocemente, precisou tomar atitudes que pela tenra idade ainda não lhe cabiam, mas que pela ausência de adultos preparados para isso ela teve de fazê-lo, interrompendo e atropelando, assim, a sua infância.

A relação entre o adulto e o jovem é, como já disse, cheia de armadilhas, pois, se por um lado a criança e o jovem tentam o adulto a sair de sua posição, através de provocações, seduções e ataques à autoridade, eles, verdadeiramente necessitam de que o adulto não desista de seu lugar e fique firme em sua posição. Se é uma posição na qual o adulto tem novas oportunidades de elaboração das experiências infantis já vividas – isso é certo − isso não significa voltar a ser criança ou mesmo jovem. Essa é uma confusão muito frequente, um equívoco que os adultos sempre cometem de que para termos um bom contato temos de falar a mesma linguagem, termos os mesmos gestos e nos infantilizarmos para sermos aceitos. E com isso abandonamos nossos postos, o que implica um grande desamparo para o jovem e um apagamento dos contornos claros que a autoridade precisa ter.

O resultado disso é que o jovem, diante do desaparecimento da autoridade no adulto, perde o respeito por ele, confunde-o com outro jovem, despreza-o e, no fundo, se sente muito só e com a necessidade de fazer como aquela mulher que citei, ocupar a direção para que a situação não saia ainda mais dos trilhos e se arrebente mais à frente.

 


Élide Camargo Signorelli

Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

e-mail: elidesig@hotmail.com

Fonte: Sistema de Ensino Integral

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